– vivências . leituras . registros –

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Quando se precisa calcular o valor dos alimentos, contabilizar o custo do sustento, comprar livros nunca é algo que se possa considerar como um item necessário na cesta básica (embora o seja). Logo, dei muita sorte que meus familiares enviavam para nós, crianças, gibis e livros que tinham sido de outras crianças (no caso, meus primos), mas que agora não tinham mais interesse. E assim conheci o universo da Marvel e outras tantas histórias.

Houve uma época que recebemos vários livros que eram da banca de revista que havia sido fechada, e muitas deles com narrativas do velho oeste. Achei estes muito divertidos e, iniciando a adolescência, ficava fascinada com os romances que tinham nas histórias. Tive ainda o privilégio de uma vizinha da frente da nossa casa emprestar-me alguns livros para leitura. Estes tinham um texto com vocabulário mais denso para o meu nível de leitora iniciante. Ainda assim, lia, pois me fascinava acontecer tantas coisas numa virada de página. Não lembro dos títulos… lembro da palavra “corso” em um deles…

Entre leituras de super-heróis, velho oeste e piratas, além de muitos filmes (a televisão era a garantia de que ficaríamos quietos em casa), vivi o florescer da vontade de viver um romance, despertando o interesse por alguns meninos que me levaram a fazer poemas lindos do meu ponto de vista (possivelmente muito bobos se os lesse hoje). Minha escrita começou a surgir para tentar explicar o turbilhão de emoções que explodiam. Gostar de quem não gostava de mim, um contexto dramático e perfeito para poemas cheios de declarações e juras de amor eterno, embora não fosse correspondido.

Percebo agora como as leituras, de alguma forma, iam criando um repertório que precisava ser usado. Eu também queria encher páginas e mais páginas com palavras ditas de mim para mim. E talvez assim também encontrasse a minha tradução do que sentia.

Assim ia lendo tudo que me caia nas mãos: livros, revistas, gibis, poemas, bulas de remédio, receitas, trechos da Bíblia (um dos poucos livros que seria possível encontrar em algumas casas)… lia, e também assistia a filmes. Como é fascinante uma história ganhar vida bem ali, de dentro de uma caixa cheia de fios e eletricidade. Na minha ignorância, só podia ser algo mágico. Também apaixonei-me pelos filmes, exceto quando tentam dar vida às histórias dos livros… raras vezes acertam.. mas continuam tentando.

Por fim, a vontade de escrever foi crescendo junto com o meu corpo que mudava, enquanto meus sentimentos e emoções amadureciam, e o desejo de que minha realidade pudesse ser diferente da que era de fato. Escrever era uma possibilidade de fuga, diferente daquela que a leitura dos livros me proporcionavam, pois na escrita era eu quem traçava o caminho e ditava o destino.

Afinal, não tinha como, depois de tantas “vivências” literárias, ainda que toscas, contentar-se em não querer ver algo além dos limites das páginas…


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