– vivências . leituras . registros –

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Lembro de quando criança acordar de manhã e a primeira coisa, por conta da educação de casa, sentir a necessidade de tomar banho para poder ir para a escola. Independente do clima que estivesse (pois na minha terra, quando chove, a gente já fica batendo o queixo de frio). Simplesmente sabia que tinha que fazer isto. E quando chegava da rua, a mesma rotina, como se fosse um recomeço. Acordar de manhã não era difícil, mas às vezes dava preguiça. Ainda assim havia o impulso do movimento de ver o que aconteceria nesse novo dia.

Quando adoeci emocionalmente, e tantas outras vezes, o primeiro sinal de alerta foi eu começar a negligenciar o banho. Não me importava mais fazer o marco da mudança na rotina, pois não havia mudança de espírito. Tudo era sem graça e sem razão de ser. Só levantava, arrumava-me e ia, olhando o relógio, contando as horas para voltar para casa, cair na cama e esperar o outro dia chegar, sem graça alguma, sem ânsia alguma de que amanhecesse.

Poderia dizer que o dia foi tão cansativo que não conseguia ter energia para tomar um banho… mas não era o caso. De igual modo, como eu lamentava acordar de manhã e ver que o dia seguinte chegou, não tomar banho era a continuidade deste sentimento de total apatia pelo oportunidade de viver mais vinte e quatro horas. E mesmo tendo tantos motivos razoáveis que poderiam servir de motivação e tal, ainda assim não fazia o menor sentido.

Aos poucos, em contas gotas, respirando e seguindo a vida, fui encontrando algumas pessoas e vivendo outras situações que foram me resgatando, à medida que eu ia me permitindo. Não foi algo específico em si que ajudou, mas um conjunto de leituras, encontros, conversas, choros, momentos artísticos, reflexões, mais lágrimas, muitas conversas, algum medicamento, e muita, muita, muita autoanálise para poder voltar a sentir vontade de tomar banho, depois de um dia cheio de compromissos, e lembrar da satisfação esperar o novo dia chegar. De desejar um novo dia na vida.

Ainda tem dias que são difíceis, mas cada vez que acontece, dói menos e me recupero mais rápido. Já conheço os sintomas… então, quando vejo que algo está querendo anuviar meu coração, tomo um banho demorado, faço algo que gere um bom afeto (alimento da alma) e assim, devagar, renovo meu viver. Sem fugir, mas buscando entender antes de mais nada o que pode está me afetando. Nomear o que me machuca e decidir se mantenho ou deixo ir.

E você, é capaz de reconhecer os sintomas que lhe comunicam que a alma está pedindo um banho para refrescar os pensamentos?

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