– vivências . leituras . registros –

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Mais uma reunião de trabalho. Sinto que sou calada antes mesmo de emitir qualquer som. Tento encontrar a voz para dizer o que penso, mas alguém atravessa o momento em que puxo o ar e sufoca, a palavra que se esforça para sair. Mais uma vez não encontro espaço suficiente para que o som se torne audível. Assim como uma criança que tem o choro sufocado pela ameaça do castigo, vivencio a dor de não ser ouvida, de ser calada, alimentando a sensação de apagamento, de estar num grupo onde minha existência é uma cota numérica que precisava ser preenchida.

O que faço aqui? Por que não me imponho? Sinto um aperto no peito e um calor que aumenta a cada respiração. Tento controlar a entrada e saída do ar para sufocar as lágrimas. Tal qual uma criança, mais uma vez me agarro à ideia de que um dia conseguirei dizer o que penso, ao mesmo tempo que me questiono: quanto tempo mais preciso esperar por este momento?

A reunião acabou e não notei que acabei sendo a única que ficou na sala. Sequer consegui ouvir aqueles que me silenciaram. Sequer consegui me fazer ouvir e entender o que tanto queria dizer. Agora só sinto o redemoinho de todas as vezes em que esta cena se repetiu. Levanto, depois de um suspiro fundo e vou para o banheiro lavar o rosto para misturar as lágrimas com a água e assim conseguir terminar o expediente.

Ainda sem saber o que fazer com tudo que aconteceu… mas com a certeza de que, a cada vez que isso se repete, sinto como se estivesse chegando no ponto em que, em vez de falar, precisarei gritar para ser ouvida. Não sei quem ficará mais surpreso: se eu por finalmente ouvir minha voz sendo verbalizada de forma audível, ou meus colegas de trabalho que chegarão à conclusão de que enlouqueci.

Mas, afinal, quem consegue manter a sanidade quando é gradual e sutilmente silenciada dia após dia?

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