– vivências . leituras . registros –

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Como exercer o papel de mãe numa sociedade que idolatra a maternidade, a nível de santidade, mas praticamente deixa-a ao deus-dará na prática? Assim é o exercício da maternidade na sociedade brasileira, e julgo que seja assim em todas as sociedades num âmbito geral. Ser mãe não é padecer no paraíso, é viver no inferno fantasiando o paraíso para suportar os dissabores do dia a dia.

Amargo da minha parte? Se você tem rede de apoio, direitos amparados por lei, uma estabilidade financeira que lhe permite viver com dignidade, saúde para dar e vender, ainda assim será difícil vivenciar a maternidade. Agora imagina tirar qualquer um, somente um, desses aspectos mencionados e você não terá ideia do quão difícil será. Só quem vive tal circunstância (que muitas vezes é não ter nenhum desses aspectos) é que pode falar.

Como as mulheres tem reagido à esta dura realidade? O número de nascimentos está diminuindo (https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-registra-menor-numero-de-nascimentos-em-quase-50-anos-diz-ibge/) e, pasme, sendo mulher, não é surpresa para mim. Cada vez mais, aumentando a oportunidade de estudos, meninas tem percebido desde cedo que é melhor investir na profissão do que num casamento. E ainda que casem, preferem esperar para pensar se terão filhos, ou até mesmo decidir por não tê-los. Afinal, está cada vez mais insuportável viver uma maternidade solitária com um marido que esquece que é pai da criança. E quando faz o mínimo, espera elogio por ter ajudado!

Quando não se tem forças para mudar o mundo, usa-se as arma que se tem. E a maior que podemos ter é evitar a todo custo que a maternidade se torne um peso difícil de carregar. Ainda mais sozinha. Pois para a maternidade dar certo, faz-se necessário educar os meninos para a paternidade responsável. E isto começa antes mesmo de ter filhos, quando o homem e mulher entendem claramente que o propósito do casamento é crescimento mútuo, e não uma relação de servidão à moda medieval, onde tudo se dá e pouco, ou praticamente nada, se recebe em troca (neste cenário, é a mulher quem sempre perde).

Este texto é uma desabafo decorrente do testemunho de mais uma violência testemunhada de uma mãe que, ao pedir atestado médico para acompanhar a filha em casa após uma cirurgia, tem seu pedido negado pois o médico não viu necessidade, dando somente o atestado para a paciente se afastar das atividades escolares. Afinal, o emprego da mãe permite trabalhar de forma online. Ou seja, ela pode, de casa, cuidar da filha que se recupera (imbuída de toda a logística que isto acarreta em termos domésticos – alimentação, limpeza, horário de medicamentos etc) assim como ser produtiva para o trabalho que lhe faz o favor de pagar um salário. Ora, não lutamos para trabalhar e sermos remuneradas? Nada mais justo que o façamos em paralelo às responsabilidades que vieram esculpidas em nosso código genético, que é ser mãe ainda que isto custe a própria existência (para deixar claro, esta afirmação contém ironia).

Enfim… temos uma maternidade que é muito utilizada para propaganda, motivo de aumento de vendas no mês de maio, instrumento de manutenção do comando político na mão de homens que sequer sabem lavar a própria cueca. Uma mãe sobrecarregada não tem força para viver a própria existência, o que dirá lutar contra o sistema…

Mas uma coisa é certa: as novas gerações de mulheres estão percebendo isto cada vez mais, e a resposta para não entrar na armadilha está sendo clara: elas estão cada vez mais buscando trilhar seu próprio caminho antes de caírem na ilusão de que ser mãe é a maior realização que podem ter. Pelo contrário, novas percepções de mundos se mostram e a maternidade deixa de ser a única, mas uma das possibilidades de vivência. Exatamente isto: uma possibilidade, não mais a razão de ser. Os números estão aí, para quem gosta de estatística, mostrando essa mudança de pensamento.

E você tem refletido a respeito? Pois independente do gênero, acredite, isto lhe afeta.

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