De um dia que parecia que tudo era o presságio de uma grande tragédia, vivi os próximos repletos de momentos agradáveis, revelações, confidências, risos e algumas lágrimas para lubrificar os olhos. Mas para ter tudo isto, precisei ter coragem em aceitar que tinha o risco de me perder no caminho (e de fato me perdi). Mas não quer dizer que eu não sabia aonde chegar; o fato era que eu precisava de mais tempo para me encontrar.
Demorei para entender que não tenho um GPS no meu cérebro. Talvez seja algum defeito de concepção de pouca ou nenhuma importância para o meu caso que não sou motorista, nem sequer guia de viagens em navios ou qualquer meio de transporte, ou profissão em que esta habilidade seja imprescindível. Facilita quando se tem? Claro. Mas se não tem, ainda dá para viver bem? Não tenho dúvida disto.
O prejuízo mais visível é de não conhecer lugares novos com mais frequência, pois a regra é sempre seguir e fazer os mesmos trajetos, ou no máximo se aventurar nas adjacências dos trajetos já conhecidos. Ainda, numa situação de emergência, fica muito difícil ser a ajuda para fins logístico. Todavia ser o alguém que fará a ligação para o SAMU em caso de acidente tem sua importância, não é? Mesmo com este consolo, não vejo possíveis vantagens em não se ter um GPS no cérebro.
Porém, de todas as inabilidades que causam desconforto na alma, não ter GPS no coração é o mais sofrido, pois me leva a não saber como chegar no coração das pessoas que amo ou que quero amar. Assim como não saber o caminho que me ensine a entender meus medos, aceitar minhas sombras, perdoar meus inúmeros erros. Para completar, a ausência desse tipo de GPS dificulta até mesmo em encontrar a placa (ou saber interpretar a informação contida nela) que me diz que o outro é o outro, e isto não me impede de amá-lo, mas que saber disso é o bom começo de qualquer relacionamento saudável.
Este GPS não veio comigo, mas está sendo construído a cada passo que dou em busca de entender a razão de estar aqui. O interessante é que, ao contrário do GPS do cérebro que eu não consigo desenvolver, o do coração é aprimorado gradualmente. Vai se potencializando e me deixando cada vez mais confiante nas decisões que tomo em relação às direções que devo seguir, às palavras que posso usar, ao gesto que de fato me levará a este encontro (que também inclui me encontrar).
Há caminhos que são difíceis, inegavelmente, mas o destino ao qual eu quero chegar ao fim da jornada vale cada frio na barriga que sinto quando adentro um caminho desconhecido. Vale o medo de demorar em entender se devo seguir reto ou fazer a curva. Se o retorno que fiz era o correto ou estou me perdendo cada vez mais (para depois descobrir, em algumas vezes, que sim, estou me perdendo cada vez mais, porém faz parte).
Por outro lado, sempre chega o momento, no próximo sinal, no qual preciso tomar a decisão ousada de confiar no GPS do meu coração. Então, sigo em direção ao lugar que de fato faz todo o sentido: o de perceber que valeu e tem valido a pena estar aqui por mais um dia. Sigo me perdendo, mas também me encontrando.
E você, qual GPS da sua vida está mais atualizado?
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