Podemos pensar que somente em textos longos, com um enredo complexo, encontraremos a mensagem que responderá nossas inquietações. Que encontraremos a narrativa que traduzirá o que inquieta nossa alma, dando-lhe voz. Mas, posso garantir, que você pode encontrar tudo isto num livro com desenhos que parecem traçados inacabados, com cores de aquarela, e umas frases que dizem muito em poucas palavras.
Aliás, em vez de indicar um, serão dois. O autor Charlie Mackey publicou “O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo” e “Nunca se esqueça: O menino, a toupeira, a raposa, o cavalo e a tempestade”. O primeiro encanta já na apresentação do autor e na sua introdução, que é onde teremos o texto mais longo. No decorrer das próximas páginas, serão imagens e pequenas frases que nos fazem lembrar um diálogo, ou os pensamentos, dos personagens.
Não há uma narrativa em si, mas uma sucessão de colocações que vão se encaixando a medida que vamos lendo. Aliás, não precisa ler na ordem, pois abrir em qualquer página já é suficiente para que nossa mente entenda e busque, entre imagens e palavras, o que não é dito mas sentido.
O encontro foi despretensioso, na entrada de uma livraria. Comecei a folhear e a ler ali mesmo. Entre lágrimas que saltavam sem qualquer constrangimento, não conseguia parar. E assim saí de lá com três exemplares: um para mim, outro para o meu marido, que leu junto comigo e se emocionou, e o terceiro para uma amiga querida que faria aniversário. Ainda compramos outros exemplares para dar de presente em outros momentos. E continuo indicando-o sempre que posso. Meus filhos acham bonito o livro. Mas levará tempo para eles o amarem como eu.
“- Qual é a coisa mais corajosa que você já disse? – perguntou o menino.
– Socorro – respondeu o cavalo.”
No segundo livro, podemos ter uma ideia de continuidade, mas não é verdade. Há uma nova mensagem, mas atrelada à primeira, pois nada está separado. Tudo se funde e segue junto, ainda que com novas conclusões, novos sentimentos e emoções, novas aprendizagens. Mas o essencial está ali, presente em cada traço, em cada cor, em cada escrito.
Temos por sua vez um cenário que envolve uma tempestade. Não como um obstáculo, nem como algo ruim, e nem bom. Só é isto: uma circunstância pela qual todos passam. Juntos, ou separados, mas sempre se encontrando. É necessário entender o que os une, e o que os mantém no eixo, sem perder o rumo. E se se perder, confiando na bússola que os guiará no caminho, apesar de tudo.
“- Eu acho que nem o rio sabe para onde está indo…
… até alcançar o mar.”
Não existe resumo para a obra. Não existe “spoiler”, pois cada leitor terá uma experiência a partir de sua história. Não há uma conclusão certa. Há a beleza do artista, uma pessoa que tenta também se encontrar, que tem medo e nem acredita que tenha publicado o livro. Ainda bem que ele deu o passo adiante, mesmo que não confiante.
Graça a este gesto generoso, tenho duas obras que me acompanharão pelo resto da vida, pois eles me passam a ideia de multiplicidade, como se fossem inúmeros livros num só. Cada vez que eu os leio de novo, nunca é um “reler”. Simplesmente é como se fosse a primeira leitura, um novo entendimento, um novo olhar.
Vendo e lendo, sinto que meu coração encontrou as imagens e as palavras capazes de traduzir os mistérios, as sombras, os medos que carrego e não consigo traduzir. Em vez de calar, agora posso abrir em qualquer página e encontrar a palavra precisa, a imagem terna que me aquece, que me consola e me diz:
“- Uma das coisas mais bondosas que você pode fazer é ser gentil com você mesmo.”
Eis minha sugestão de leitura: aprecie sem moderação.
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