Eu ouvi uma vez a seguinte história: O Navio de Teseu (Θήσεια ναυς) é um experimento mental sobre se um objeto que teve todos os seus componentes originais substituídos permanece o mesmo objeto. De acordo com a lenda, Teseu, o mítico rei fundador grego de Atenas, resgatou as crianças atenienses do rei Minos após ter matado o minotauro e então escapou para um navio indo para Delos. Todos os anos, os atenienses comemoravam isso levando o navio em peregrinação a Delos para homenagear Apolo. Uma questão foi levantada pelos filósofos antigos: “após vários séculos de manutenção, se cada parte individual do Navio de Teseu fosse substituída, uma de cada vez, ainda seria o mesmo navio?”(https://pt.wikipedia.org/wiki/Navio_de_Teseu).
Relembrei desta história quando comecei a refletir sobre a pessoa que sou. Em termos biológicos, cada célula do meu corpo se modificou desde o nascimento. Sendo assim, a pessoa de hoje seria a mesma do dia do nascimento? Se sofro um acidente e perco a minha capacidade de me expressar (falar ou escrever), continuarei sendo eu? E se perco a minha capacidade de perceber a realidade, ainda existo?
Neste momento, meu senso de existência está atrelado à minha capacidade de raciocinar, de refletir, de me expressar. Caso eu deixasse de ter essas habilidades, não consigo imaginar como poderia ser a pessoa que sou agora. Acredito que seria mais como uma sombra do que fui, mas não seria mais eu, seria um outro alguém. Por outro lado, quando se trata de pacientes em coma, há relatos daqueles que voltam depois de muitos anos, aparentemente como se estivessem acordando de uma longa noite de sono. Mas que botão é este que liga ou desliga nossa consciência? E como saber se ainda temos alguma chance de resgate?
Além desta situação, existe a de pessoas que perambulam nas ruas totalmente alheias à realidade, sem qualquer cuidado consigo, muitas sem roupa, enfim, nitidamente sem consciência. Essa pessoa que anda, come, ela é quem? Existe algum resquício da pessoa que era conhecida pelos entes queridos? Sempre meu angustio quando vejo alguém nesta situação, pois não faço a menor ideia de como chegou a este ponto, e se tem algo que poderia ter sido feito para evitar que chegasse a este limite, e se há algo que possa ser feito para resgatá-la.
Passei por algumas vivências que me fizeram questionar o sentido de viver, e o meu pavor era de me perder. De chegar num ponto da minha consciência entrar num buraco tão escuro que eu não conseguisse mais encontrar o caminho de volta. Nossa mente é um grande mistério, mas é fato: somente a própria pessoa é capaz de dominá-la, de encontrar meios para tomar as rédeas e retomar o comando de si. Mas para isto é preciso conhecer nossas fraquezas, nossas sombras, e saber, principalmente, que ser humano queremos ser.
E você, como define a sua existência?
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