Ele não disse nada quando chegou, mas eu sabia pelo perfume na roupa, pelo olhar desviado, que encontrara a amante naquele dia. Teria sido no horário do almoço? Ou teria sido depois do expediente, poucas horas antes de chegar? Meu coração dispara mas sigo a rotina, oferecendo uma bebida e avisando que logo a janta estará pronta. Ele diz que não está com fome… que vai tomar banho pois o dia foi cheio. Respiro e sorrio, dizendo então que deixarei a bebida pronta ao lado da cama. Wiski. Ele gosta com bastante gelo.
Enquanto ele busca reacender a fagulha da existência vivendo essa paixão enquanto usufrui do conforto do lar, eu me sufoco em reprimir desejos e ressentimentos para manter o mínimo de civilidade e da boa aparência. Mas tudo, absolutamente tudo tem um limite.
Sirvo a bebida sem antes adicionar uma dose do meu antidepressivo. Uma dose pequena… eu acho que foi pequena… o suficiente eu penso para que durma e amanhã não tenha energia para ir a lugar nenhum. O suficiente para que ele sinta no corpo o que grita em mim: o peso de não sentir mais nada, nenhuma vontade de levantar e de sequer abrir os olhos. Por um dia, pelo menos, estaremos vivendo o mesmo inferno que eu vivo todos os dias.
Saio do quarto em silêncio. Em pouco tempo ele cairá em sono profundo e terá dificuldade de acordar. E quando acordar, sentirá o corpo pesado, sem energia para o passo seguinte que é se levantar. Não terá o peso do vazio no peito, mas sentirá no corpo a sensação de que tudo lhe escapa e nada parece possível de se fazer para mudar a sensação.
Escuto o barulho do gelo no copo de wisky.
Ali, sozinha, os pensamentos parecem enlouquecidos, buscando a solução final de tanta existência reduzida a uma rotina sem sentido, sem sentimento, sem carícias, sem desejo. Desligo as chamas do fogão e interrompo o cozimento dos alimentos para a janta. Não tenho fome de comida, mas de viver. Quanto tempo fiquei assim? Vou para o quarto e escuto a respiração pesada dele. Ouvindo o silêncio, percebo que não me cabe mais permanecer ali.
Assim como ele, também anseio por uma chama que reacenda minhas paixões, que desperte meu desejo, que me faça sentir desejável. Ainda sinto em meu corpo a lembrança do gozo e não consigo mais aceitar que seja apenas isto, uma lembrança cada vez mais distante do pulsar desejante que sempre senti. Pego a mala, coloco calmamente as roupas que precisarei, sem pensar, sem nem ao menos traçar uma logística. Só sei que preciso sair dali e não mais voltar.
Olho, antes de fechar a porta do quarto, para o corpo que dorme na cama. Depois de tantas juras e gemidos, eu parto em silêncio, pois não há mais nada a ser dito. A chama que ele busca nos encontros que tem com a amante do momento me ameaça a existência. Causa-me queimaduras na alma que, se continuar, só levará a um único destino que é a morte em vida. E no desespero de buscar salvar o resquício de quem fui, e de quem sou, eu parto. Pois não aceito menos do que tive. Menos do que sou.
Ele sentirá, ao acordar, o entorpecimento do corpo. Mas será com a minha ausência injustificada que talvez sinta a sensação de não encontrar a pessoa que acreditava conhecer. E é neste momento que eu também terei decidido não mais permitir ser dominada pela amargura. Irei construir uma outra vida na qual eu seja a própria chama que alimenta o meu ser. Não há lágrimas, pois não há mais pelo que lamentar. O luto da perda já havia sido vivido nos últimos dois anos. O que tenho agora é uma vontade louca, um desespero silencioso, de sair deste lugar ao qual eu não pertenço mais.
Fecho a porta do apartamento sem fazer barulho e, pela primeira vez depois de um longo tempo, sorrio para o que estar por vir.
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