– vivências . leituras . registros –

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Um assunto que sempre causa horror, na grande maioria das pessoas, é falar sobre a morte. Parece muito com aquela ideia de que não queremos ver o que está na nossa frente, pois não queremos lidar com aquilo agora. E daí nos fazemos de cegos. A ironia é que todo dia, de alguma maneira, morremos.

Nossas células não são as mesmas de quando nascemos. Elas já se multiplicaram, nasceram novas que substituíram as que não estavam mais dando conta do recado. É a capacidade biológica de renovação celular que ajuda a gente não ficar do mesmo tamanho de quando nascemos. Todos os dias, de forma física, mas microscópica, uma parte de nós morre.

Além da morte física, temos a morte de ideias, valores. Quando aprendemos algo novo, não somos mais os mesmos. Quando nos deparamos com uma percepção diferente do que acreditávamos, que muda nossa maneira de ver o mundo, morre a pessoa que passou a vida inteira acreditando numa coisa, e nasce outra, assustada, com a nova visão do mundo. Muitos não aguentam e tentam negar o que perceberam… mas mesmo que não aceitem, está lá, na inconsciência, essa nova informação que muda tudo o que até então se acreditava.

Sonhos morrem. A depender do sonho, quando este morre, queremos morrer junto. Deixamos de perceber que se um sonho morre, outro pode nascer também. E há sonhos que só nos agarramos para que pudéssemos realizar um outro que nem sabíamos que era o verdadeiro sonho, o sonho que nossa alma buscava em todo lugar. Quando estamos perdidos, levamos tempo para perceber.

Mas às vezes a dor da morte é tão inesperada (ao nosso ver), e como não estávamos preparados (pois não a aceitamos), vivemos um luto que não tem fim. Aceitar que a morte está ali, fazendo parte da vida, ajuda a entender que o luto é necessário mas não precisa permanecer. Que sentir a partida é valorizar a existência de alguém ou de algo em nossas vidas, mas que justamente a finitude de tudo que vive, sejam pessoas, sejam ideias, pensamentos, emoções, tudo tem um tempo de duração, é o que torna valioso o seu tempo de existir.

Mas há algo que dura, que perdura além da morte: os bons sentimentos que foram cultivados pela pessoa que partiu. Até mesmo pelos bons sonhos que morreram. Quando o sentimento do amor é despertado no coração de alguém este fica, permanece, não depende da existência da pessoa ou da situação que levou ao cultivo. O coração se alimenta deste sentimento e também gera alimento para que ele cresça e ganhe cada vez mais espaço. E é este mesmo amor que nos motiva a ser melhor.

Falar sobre a morte, refletir sobre a morte, é a oportunidade que temos para entender o que vale a pena. No geral, estamos perdidos, distraídos, ocupados com pensamentos e sonhos que não fazem o menor sentido. Sequer sabemos do que gostamos, do que desejamos de verdade, pois a urgência de atender às necessidades básicas de sobrevivência nos afasta de saber o que realmente buscamos como seres humanos. E a mídia do consumo se aproveita disto para nos deixar mais perdidos ainda, pois o consumidor compulsivo é mais lucrativo, pois ele busca tampar os buracos da existência com coisas, e sempre tem alguém que ganha com isto. Triste realidade.

Todavia, cada vez que acordamos, temos uma nova oportunidade, única, de viver algo autêntico, alinhado com os valores que norteiam a nossa existência. Um recomeço porém com mais bagagem, com mais elementos que possam nos ajudar a tomar a melhor decisão. É necessário coragem para encaixar as peças e ter um vislumbre da imagem que está sendo montada nesse quebra-cabeça chamado vida. Detalhe: a imagem é você, íntegro, pleno. Sem fragmentos. Sem peças faltando.

E cada dia é essa oportunidade. O que morre são as imagens equivocadas de si. A cada morte, a cada compreensão do que importa, a imagem de si vai ficando nítida e tudo começa a ter mais sentido e ser mais claro. Menos “ter”, buscando mais “ser”.

Neste processo, quantas mortes em vida você já viveu?

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