A maior ilusão que nutrimos é que, quando temos uma rotina, confiamos que tudo será conforme o planejado. E no geral até acontece, pois é com a rotina que implementamos a realização de projetos. Mas sempre tem aquele dia que traz o caos como elemento de transformação. E como todo bom caos, coloca em xeque toda a nossa segurança e escancara o quanto gostamos de nos enganar.
Quando quero pensar nas conquistas que tive, atribuo muito à minha disciplina tosca de seguir um roteiro, conforme me disseram, que daria certo. É tosca porque justamente não há muita técnica. Parece mais um: vou insistindo para ver onde vai chegar, o que não significa que não será bom, só não sei se será o que eu gostaria. Em todo caso vou seguindo, como uma cega de um olho, no meio da noite sem lua cheia, que conta com a memória falha para encontrar o tesouro escondido, lendo um mapa escrito em uma língua que não domino.
Caótico, né? Mas eu só percebo o caos quando algo chocante aparece, como uma grande árvore que caiu no meio do caminho e vai me forçar a dar uma volta para eu poder continuar o trajeto. Ou como uma tempestade forte, com trovões que me amedrontam, que vai me forçar a parar um pouco, buscando abrigo, testando minha paciência e persistência. Afinal, tem momentos que precisamos esperar o tempo melhorar para poder continuar, contudo podemos perder o foco e nos acomodar no abrigo e ficar por ali mesmo.
Em todo caso, o fato é que as mudanças são constantes. É a única certeza que podemos ter, juntamente com a finitude da vida. Mas assim como não gostamos de conversar sobre esta última, também nos iludimos com a ideia de que nada muda. Todavia, se eu começo a viver no automático, sendo levada pelo ritmo dos outros ou pelas circunstâncias, sem qualquer governo de mim, nesta condição, o viver perde o sentido.
Quando vivemos assim, a vida parece uma grande cena estática; mas o tempo, este é implacável. Ele passa, alheio à nossa inércia e dispersão. Daqui a alguns anos, olhamos no espelho o nosso reflexo e nos perguntamos: o que eu fiz da minha vida? Às vezes, muitas vezes, o caos é a oportunidade que a vida nos dá para que possamos voltar para o caminho que de fato precisamos seguir, forçando a saída do abrigo e nos obrigando a pensar sobre o que vamos fazer agora. E seguir o caminho, ao destino que almejo, com consciência e usando atenção plena para saber onde piso. Além de garantir que eu não caia em mais uma ilusão.
O caos, ironicamente, nos salva de nós mesmos, dando o impulso necessário para a tomada de consciência e nos forçando a fazer o movimento necessário para ir adiante.
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