Antes de me encantar pela literatura, ver filmes era a maneira de me ver em outro cenário, pegando outras referências de linguagem, estilos, cultura. E em muitos deles também entender um pouco do que eu sentia. Recentemente revi o filme “O Náufrago” estrelado por Tom Hanks. De todo o filme, hoje, na idade que eu tenho, a parte mais tocante foi quando ele disse: “Tenho que continuar respirando, amanhã o sol vai nascer; ninguém sabe o que a maré vai trazer.”
Quem viu o filme, sabe que o momento em que ele fala isto é quando tem que encarar que toda a imagem de que como seria se ele voltasse para a sua vida, e na qual ele se agarrou para suportar os anos de isolamento na ilha no meio do oceano, tudo aquilo caiu por terra. A primeira vez que ele teve o pensamento de que precisava continuar foi justamente quando pensou em desistir de tudo enquanto ainda estava na ilha.
Este momento me marcou muito, pois na vida adulta passamos por muitas situações em que nos agarramos em algo para dar sentido à nossa existência, para suportar algumas dificuldades, e muitas vezes nos damos conta de que o que nos agarramos para ter esperança não é exatamente o que encontraremos. E a partir daí precisamos decidir se vamos continuar ou não.
Se desistimos, podemos passar o resto da vida nos lamentando, agarrando-nos ao que foi uma fantasia e morrer, em vida, afogados em ressentimentos e lamúrias. Por outro lado, se decidimos seguir adiante, recalculando a rota, este caminho inusitado nos trará um novo cenário, novas perspectivas antes nem imagináveis. Seguir adiante apesar da dor é quase insuportável, mas depois de um tempo vamos nos fortalecendo e a dor de antes só será lembrada por conta da cicatriz. Pois as novas possibilidades que surgem trazem cura e nos mostram o quão rica a vida pode ser.
Já tinha visto este filme quando jovem, e esta frase em nada me tocou, pelo contrário. Só lembro da sensação de angústia por tanto sofrimento, e da frustação que senti por ele, que esperava algo quando voltasse para a sua vida, mas que não se concretizou. Nesta idade, carregava a ideia clara de que, se lutamos por algo, é de se esperar que o conquistemos. Afinal, o prêmio pelo esforço é a alcançar a razão que motivou todo o movimento.
Na fase madura, aprendemos duramente que nem sempre conseguiremos conquistar o que esperávamos, apesar de todo o esforço. Por outro lado, isto não impede de que continuemos a respirar e a viver, pois não sabemos o que o mar pode nos trazer. E assim, aprendemos que existe a possibilidade de vivenciar muitas vidas numa única existência, e podemos ser felizes em cenários que nunca havíamos sonhado, se nos dermos a chance de continuar.
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