– vivências . leituras . registros –

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Somos bombardeados pelas propagandas e conselhos de gurus de que precisamos viver o momento presente. Aliás, temática constante na filosofia e conversas de bares. Mas o que significa exatamente isto?

Vejo que algumas pessoas vão para a linha de pensamento que é aproveitar todos os prazeres que for possível. Afinal, que garantia temos que o amanhã chegará? Viver o agora é mais concreto do que a possibilidade do dia seguinte. E assim a vida segue desgovernada, sob forte adrenalina. É um modo de viver que, para mim, não funciona muito bem.

O outro viés é daquele que planeja tudo. A vida de hoje é um eterno canteiro de obras, na construção do futuro que se espera alcançar, ainda mais depois de tanto planejamento. Até gosto da ideia de ter um mínimo de planos, mas me sufoca não ter rotas de fuga, ou diferentes possibilidade de caminhos. Acontece tantas situações inusitadas que não é possível ter certeza que daqui a dez anos o que eu planejei como importante continuará a ser quando chegar a fatídica data da entrega da obra (que pode ou não acontecer).

Sou sonhadora demais… há mais de duas décadas que gostaria de ter começado esta página, mas meu desejo se perdia no meio dos outros possíveis objetivos, ou logo me desanimava pensando ser uma grande bobagem. E assim fui traçando as realizações que eu precisava fazer e me angustiando por não conseguir alcançá-las. Mas a grande sacada veio quando pensei: conquistei tudo o que desejei, só que não foi na dimensão megalomaníaca que eu imaginei. Foram conquistas simples e suficientes para satisfazer meus desejos principais.

E foi numa manhã nublada, que ameaçava chover a qualquer momento, que percebi que viver o presente é sentir este instante que já não existe. É torná-lo não só um tempo verbal mas sim o nome do que estamos tendo naquele momento: um presente. Estar aqui e poder sentir o que está ao nosso redor e em nossos corações de forma consciente faz muita diferença nas conclusões que tiramos do que realmente prende nossa atenção.

O presente existe no tempo e no instante em que se vive. Mas ele é fugidio. Se houver uma distração, perde-se os seus dois aspectos, pois não é possível viver um sem sentir o outro. Hoje faço planos, pois eles me ajudam na direção, mas sei que eles podem mudar a qualquer momento. O que eu não posso deixar de ter bem claro é qual vida quero ter hoje, amanhã e depois. Esta sensação de existir e ter satisfação de que vivo a vida que me cabe deve ser constante, e não condicionada à realização ou não de algo ou de alguém.

Percebo, por consequência, que viver o momento é muito mais do que uma questão de tempo ou de um conceito. É saber que nenhum instante se repete. O que vivemos é único, seja para o bem seja para o mal. Tudo, exatamente tudo, passa. Nossa existência passa. O que nos acompanha para sempre é esta sensação no peito que nos dirá se a vida que vivemos está coerente ou não com os anseios do nosso coração.

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