– vivências . leituras . registros –

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Já iniciei várias vezes o curso de graduação de Letras, mas nunca passei dos primeiros períodos por diversas razões. Numa dessas vezes, lembro da informação de que a escrita como conhecemos hoje foi desenvolvida muito, muito tempo depois da linguagem.

Pesquisando para trazer algumas fontes interessantes sobre o assunto, pois a linguagem é o nosso diferencial dos outros animais, encontrei no Jornal da USP – Universidade de São Paulo (https://jornal.usp.br/ciencias/quando-desenvolvemos-a-capacidade-para-linguagem/) a informação de que a linguagem, como a conhecemos hoje, tenha se desenvolvido há mais ou menos 135 mil anos. Quanto à escrita, no artigo da UFMG (https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/historia-escrita/), constatamos que os primeiros sinais de registro simbólico (pinturas rupestres) datam por volta de 40 mil anos. Assim, se tomarmos o período de um mês por referência, passamos vinte um dias só falando, e somente nos últimos nove dias que começamos a escrever (precisei do meu marido para fazer essa proporção: ele é da área de exatas). Logo, pela lógica, os primeiros dias desta nova habilidade foram bem rudimentares. Isto me diz muito sobre este processo da escrita.

Vamos considerar que, na prática, os dois primeiros anos da nossa vida, em média, ficamos só ouvindo (balbuciando alguns sons e tal), e depois vamos “repetindo” os vocábulos dentro do contexto que memorizamos. Tenho por lembrança o quão incrível foi para mim quando percebi a minha filha construir uma frase sem que houvesse uma situação fática ali por referência. Ela simplesmente juntou as informações e expressou de forma inédita. Não mais uma mera “repetição” do que lhe era dito. Ali começou o seu processo de autonomia linguística, diferenciando-a de um papagaio.

Na próxima etapa de desenvolvimento linguístico de uma criança, temos o processo de alfabetização que começa por volta dos quatro anos. Imagine: ela passou os anos anteriores associando sons com imagens (substantivos), ações (verbos) e tantas outras classes gramaticais, sem que houvesse na mente dela um símbolo disto e nem mesmo essa ideia de classificação. Aos poucos as letras foram sendo apresentadas, suas possíveis combinações.

Nesta etapa, minha filha olhava para estes “desenhos gráficos” e precisava fazer a ponte destas imagens gráficas com as imagens fáticas que já possuía. Ela comenta que lembra da primeira vez que percebeu que sabia ler. Foi quando viu a palavra “pipa”, escrita no quadro pela professora, e a leu em voz alta, percebendo de imediato a associação da imagem em si com a representação gráfica dessa imagem. Teve aí o momento da leitura de fato. Ela deixou de ser uma copista. E isto foi tão espantoso no marco de sua aprendizagem que a maneira que ela descreve a situação se assemelha a uma verdadeira epifania.

Falamos e escrevemos como se fosse algo simples para alguém que viveu uma vida escolar. Todavia deixamos de ter a noção do quanto isto é extraordinário em termos de desenvolvimento humano, o quão complexo isto foi em termos biológicos, e como até hoje surgem teorias de como e quando isto aconteceu.

Uma curiosidade: a leitura silenciosa é uma prática recente na história da humanidade. Como penso ser interessante este tópico, deixo aqui a palavra do Professor de História Paulo Vinícius F. Santos com informações interessantes a respeito (vale a leitura): https://www.ficcoeshumanas.com.br/post/a-longa-tradi%C3%A7%C3%A3o-da-leitura-em-voz-alta.

Enfim, tudo isto para dizer que a escrita é uma habilidade que aprimoramos e ainda estamos nos aperfeiçoando. E neste processo, uma das fontes que muito ajudaram e ajudam são as obras literárias. As palavras, neste tipos de textos, assumem um significado que vão além do seu conceito funcional. O sentido figurado faz a nossa mente navegar por outras possibilidades de significados. Algo como usar a palavra “navegar” sem que estivesse falando de navios e você que lê entender o sentido que quis dar.

Se um dia conseguirei escrever de forma tão fascinante que seja capaz de encantar a pessoa que me lê é uma resposta que não sei se terei nesta vida. Por sua vez, almejar isto já é suficiente para vir aqui e escrever o texto do dia. Se a humanidade ainda é novata na habilidade da escrita, quem sou eu para desanimar quando mal comecei a trilhar este caminho?

E que a escrita que quero ter seja a escrita que encontra o outro e lhe dá o impulso necessário a caminhar em busca dessa evolução. Pois sendo humanos, é imperioso que nos esforcemos para que a nossa comunicação (oral e escrita) seja feita da melhor maneira possível, cada vez mais e sempre.



 

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