No ano de 1997, cursando a 2ª Série do 1º Grau (atual Ensino Fundamental), durante a leitura silenciosa em sala de aula de um texto que estava no livro didático de Língua Portuguesa, foi quando percebi, pela primeira vez, que as palavras lidas faziam um sentido além da mera informação. Elas tocaram meu coração.
O trecho lido descrevia a situação de um menino que ia com os irmãos conhecer a nova casa. Chegando lá, cada um correu para escolher a sua árvore, não restando ao pequeno muitas opções, pois não fora tão rápido. Sua irmã (de quem ele mais gostava) resolve ajudá-lo a procurar por uma. Encontraram um pé de laranja lima, pequeno e modesto, em nada se comparando às demais árvores frondosas e imponentes do quintal. Enquanto, inconformado, reclamava da má sorte, o pequeno pé de laranja lima começou a lhe falar, deixando-o assustado! Todavia, a curiosidade era maior do que o impulso de sair correndo aos berros. A partir daí, firmou-se um laço de amizade inigualável entre ele e o menino.
O trecho terminava aí.
Não sabia o que havia acontecido antes, e nem depois. A história do menino que encontra no pé de laranja lima a amizade que preenche seu coração tocou o meu, tão pequeno quanto o dele na época. Fazer os exercícios de interpretação do texto, dentre outras atividades propostas, não me eram mais importantes. Eu queria, queria muito saber o que aconteceu com aquele menino. Como ele chegara naquela casa. E, se de fato, o pé de laranja lima continuaria a lhe falar.
Todavia, ter livros não era algo muito comum na minha vida escolar, e nem na familiar. Não pensei em falar com alguém sobre o ocorrido. Era algo distante a ideia de ler um romance naquela idade. Afinal, só havia um trecho do livro dentro de outro livro. Não percebia que poderia ser mais do que uma pequena história, não fazia ideia que era parte de uma obra bem maior do que a página de um paradidático.
Os anos se seguiram, a vida mudou, assim como a minha percepção em relação ao que se vive. Por alguma razão, quando cursava a 6ª Série (lá pelos idos de 1991), comentei com um colega o interesse que tinha de encontrar o livro do qual havia lido um pedaço (ainda permanecia na lembrança este sentimento). Foi quando ele comentou que o tinha. Querendo, poderia me vender. Claro que eu queria (não conseguia acreditar que fosse verdade)! Minha primeira compra parcelada, uma prática tipicamente brasileira de alguém que tem poucos recursos. Economizei o dinheiro da merenda que minha vó me dava para poder pagar o valor aos poucos – não quis pedir da minha família; era algo só meu, difícil de explicar.
E foi assim que, pelo valor de Cr$ 800,00, adquiri meu primeiro livro, “O Meu Pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos: “História de um meninozinho que um dia descobriu a dor…”
Eu o li numa única tarde (ou teria levado dias? Agora não tenho certeza… só tenho a sensação de que o tempo parou e só voltou a andar depois que eu o terminei). Interrompia a leitura para enxugar as lágrimas e criar coragem de continuar em alguns capítulos mais dramáticos. Ao fim, quando voltei à realidade, o enredo e seus personagens já faziam parte da minha Alma. E, nostalgicamente, iria reler mais algumas outras vezes, mesmo sabendo como tudo terminaria (e choraria, e sorriria nas mesmas passagens). Descobri, então, um mundo do qual eu me sentia fazendo parte. Agora eu tinha um “grupo” que me aceitava e dividia comigo suas histórias, sentimentos e confidências. Eu os compreendia, e eles estavam sempre a mão quando eu precisava, num simples abrir de página.
Ainda tenho o livro. Tocá-lo e relê-lo é como uma máquina do tempo, que permite o encontro da pessoa que sou hoje com a pequena pessoa que eu era, quando passei meus dedos e olhos pela primeira vez em suas folhas. E, nesse encontro, ainda sinto o peito doer e compreendo a tristeza do menino. Por que era tão difícil para os adultos entenderem o seu coração?
Com este marco, a leitura de outros livros foram inevitáveis. Processo natural de quem adentrou um lugar encantador e transformador. Este refúgio fez-me criar laços e deixou-me marcas. Não havia mais volta: as letras fariam parte da minha vida, seja explicando sentimentos, acrescentando conhecimento, ou só fazendo o tempo passar com mais prazer.
Resgatar esta passagem da minha infância, tão significativa, serve para demonstrar o quanto um livro pode determinar o interesse de uma criança pelo universo literário. Quando pequenos, as verdades que nos são ensinadas são únicas, e o mundo é tão somente aquele que visualizamos com os nossos pequenos olhos. Com a leitura, magicamente, nossa realidade não é mais só essa… e os nossos olhos agora veem também o que se passa no coração. E a solidão de outrora, que nos faz pequenos de novo, deixa de existir quando estamos com o livro certo ao lado da cabeceira, seja a idade que for.
Quando alguém diz que não gosta de ler, ou que não vê nenhuma graça nisto, eu sei que ela ainda não encontrou o livro que vai abrir a porta deste mundo onde o tempo não é marcado por ponteiros. E sei que pode acontecer de algumas pessoas nunca encontrarem. O que não é um problema, pois a vida é rica de muitas outras experiências. Sem dúvida tão fascinantes quanto a leitura de uma história inventada. Mas é inegável para mim o quão reconfortante foi descobrir nas páginas daquele pequeno livro “alguém” que também entendia a minha dor.
Este encontro me levou, mais tarde, para um outro universo: o da escrita…
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